domingo, 26 de agosto de 2012

Cale-se

Shhhhh, silêncio! Pára com isso! Pára de chorar perto de mim. Não quero ouvir ruído nenhum, não quero ver você choramingando. Não tô afim de ouvir seu falatório de cada dia, suas lamentações baratas. Eu sei que dói em você, mas se vira. Se tranca no quarto e chora lá, longe de mim! Se fosse pra escutar problemas, teria me formado em psicologia ou coisa do tipo. Na verdade, nem é bem isso. Até ouviria as outras pessoas, esses estranhos que passam pelas calçadas esbarrando em nós, mas eu conheço você. Sei bem onde fica o machucado, por favor, fique em silêncio. Será que você não aprende nunca? Eu te digo pra ir pela direita e você vira a esquerda. Eu te digo: "Leva o guarda-chuva, vai chover!" e você faz questão de se molhar. Eu te falo que vem vindo um caminhão e você me ignora, até que ele passe por cima de você. Como se não fosse suficiente, ainda tenho que te ouvir reclamar da vida. Você não entende? Não é grosseria minha, não ouse dizer isso! Seria egoísmo demais da minha parte te mandar calar a boca em alto e bom som? Olha, faz o seguinte: Vá dar uma volta. Ou durma! Dizem que dormindo a gente esquece. Aí, quando você acordar, se enfia no chocolate, assiste um filme, deita no sol e, quando a sua tristeza passar, me procura. Mas só quando a tristeza passar. Você ainda não entendeu? Pra te dar força eu tenho que estar forte primeiro, caso contrário, é efeito dominó. É que se for pra te derrubar ainda mais, prefiro me calar, gritar mandando você se calar, até ter força pra te reconstruir. Agora sai daqui! Apaga a luz e fecha essa porta.