sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Astros

Até hoje tento entender o quê exatamente tanto me perturbou naquele olhar. Era início de noite, eu não sabia onde estava, não confiava naquelas pessoas e a ocasião em si era extremamente desconfortável. Mas nada - absolutamente nada - foi mais desconsertante do que aquele olhar. O que ele escondia?  Talvez eu tenha me prendido ao mistério que representava ou era apenas o deslumbre causado por aquelas duas pequenas esferas com um líquido castanho-dourado brilhando em órbitas. Era fato que as palavras proferidas por aqueles lábios não correspondiam ao que os olhos diziam. Tudo era fora de contexto e, ainda assim, perfeitamente encaixado. Todos os pecados capitais estavam ali, refletidos e camuflados por uma áurea doce. Havia sede e ganância, dor e revolta, sutileza e simpatia, paixão e loucura, tudo no mesmo olhar. Nunca o decifrei, fui incapaz de entendê-lo. Aquelas pupilas dilatadas que tinham mais vida do que eu poderia explicar e isso levou muito de mim. Eu confesso: aqueles olhos continuam a me tragar e despir toda vez que ressurge em minhas memórias. E ressurgem, sem que eu sequer possa evitar. Afinal, quem seria capaz de contradizer as verdades pregadas por um olhar tão iluminado e voraz?




terça-feira, 6 de novembro de 2012

Pequenos pontos.

“Luna, você já colocou as roupas no varal?” “Ei, garota, vá pro seu quarto.” “Luna, lamento, mas você não vai sair hoje” “Já estudou para as provas?” “Você não serve pra nada mesmo.” Eram sempre os mesmos chavões, até estava acostumada. O que me encanta, é que Luna era daquele tipo de menina que reduz a velocidade dos passos quando uma tempestade começa, pelo puro prazer de sentir o vento soprar em seus cabelos molhados ou o cheiro de chuva que exala pelas ruas. Era instável, incerta, impulsiva. E um dia, assim, sem mais nem menos, calçou seu par de tênis favorito, se enfiou em um moletom, jogou a mochila nas costas e partiu. Sem ninguém saber o paradeiro, sem notícias, sem certeza sobre voltar ou não. Não comentara com os amigos sobre sua fuga repentina. Nem mesmo um único bilhete deixou. Apenas foi. Deixou-se ser carregada pela vida, como uma folha sobre a correnteza das águas. Acredito eu, que ela estava por aí tentando redescobrir a sensação de voar, semelhante a um pássaro criado em gaiola que é solto pela primeira vez.