sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Astros

Até hoje tento entender o quê exatamente tanto me perturbou naquele olhar. Era início de noite, eu não sabia onde estava, não confiava naquelas pessoas e a ocasião em si era extremamente desconfortável. Mas nada - absolutamente nada - foi mais desconsertante do que aquele olhar. O que ele escondia?  Talvez eu tenha me prendido ao mistério que representava ou era apenas o deslumbre causado por aquelas duas pequenas esferas com um líquido castanho-dourado brilhando em órbitas. Era fato que as palavras proferidas por aqueles lábios não correspondiam ao que os olhos diziam. Tudo era fora de contexto e, ainda assim, perfeitamente encaixado. Todos os pecados capitais estavam ali, refletidos e camuflados por uma áurea doce. Havia sede e ganância, dor e revolta, sutileza e simpatia, paixão e loucura, tudo no mesmo olhar. Nunca o decifrei, fui incapaz de entendê-lo. Aquelas pupilas dilatadas que tinham mais vida do que eu poderia explicar e isso levou muito de mim. Eu confesso: aqueles olhos continuam a me tragar e despir toda vez que ressurge em minhas memórias. E ressurgem, sem que eu sequer possa evitar. Afinal, quem seria capaz de contradizer as verdades pregadas por um olhar tão iluminado e voraz?