sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Primavera lúgubre

Hoje ouvi tua voz, diferente e fraca, nem parecia a tua voz.
Hoje vi o teu rosto, tão de longe que mal pude reconhecê-lo.
Hoje escutei as velhas frases que você costumava proferir, porém não foram ditas no mesmo tom e as palavras usadas também não eram as mesmas. Lamento profundamente dizer que minha memória tem me traído.
As lembranças que outrora eram vivas e brilhantes, hoje são opacas e foscas. O nosso belo quadro virou apenas uma tela consternada com alguns borrões, coberta por uma mortalha.
Hoje tentei retroceder três primaveras e estar na época em que o passado era presente, tentei te ouvir melhor, tentei encontrar a tua foto que hoje não existe mais, em vão tentei falar com você uma última vez, não consegui. Encarei o espelho e te vi morrendo dentro de mim, foi quando percebi que toda primavera acaba.
Você murchava como o resto das flores. Não havia vida em teu olhar. Tua voz foi silenciada aos poucos. O vento soprou toda folhagem e a espalhou pelos campos.
Hoje observei por horas as centenas de pétalas amarelinhas que boiavam no lago. Então, enquanto um pássaro cantava, você serenamente partiu.
Você, que esteve presente em cada uma das minhas madrugadas frívolas.
Você, que era a vontade me movendo.
Você, que era a minha esperança e a minha ruína.
Você... que era a minha constante primavera.
A estação findou.

Mas ainda espero que amanhã quando você acordar, uma borboleta pouse na pontinha do teu nariz, te fazendo rir. E que assim, na calmaria de um amanhecer, você encontre na vida a beleza que jamais conhecera antes.